Janeiro Branco Como Ponto de Partida, Não de Chegada
- Dra Letícia Gonçalves
- 27 de jan.
- 4 min de leitura
Vivemos um momento de paradoxo na saúde mental. Enquanto o Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade : com cerca de 9,3% da população afetada, algo entre 18 e 19 milhões de pessoas segundo a OMS , e testemunhamos os afastamentos por burnout multiplicarem-se quase seis vezes entre 2021 e 2024, surge uma pergunta urgente:
o que estamos fazendo, concretamente, para transformar essa realidade?
Conhecemos os números. Vemos as pessoas ao nosso redor adoecendo. Mas será que estamos focando no lugar certo?

O Paradigma que Merece Ampliação
Por décadas, a psicologia dedicou-se intensamente ao estudo do sofrimento humano traumas, transtornos, limitações. Como observou Abraham Maslow em 1954, "a ciência da psicologia tem sido muito mais bem-sucedida no lado negativo do que no lado positivo". Aprofundamo-nos no intolerável e no tolerável, mas raramente exploramos o apreciável, o florescimento, aquilo que nos faz prosperar.
Este foco, embora tenha gerado avanços significativos no tratamento, criou uma lacuna: aprendemos a diminuir o sofrimento, mas não necessariamente a cultivar o bem-estar. É como se a medicina se dedicasse apenas a curar doenças, sem jamais investigar o que mantém as pessoas verdadeiramente saudáveis.
A Revolução Compassiva da Psicologia Positiva
A Psicologia Positiva surge não para negar o sofrimento ou substituir tratamentos estabelecidos , seria ingênuo e irresponsável sugerir isso. Sua proposta é ampliar nosso olhar: além de estudar o que nos adoece, investigar cientificamente o que nos fortalece, o que constrói resiliência, o que permite florescimento mesmo diante das adversidades.
Martin Seligman propôs, em 1998, que estudássemos com igual rigor científico as emoções positivas, os relacionamentos saudáveis, a resiliência, o significado e as virtudes humanas. Aaron Antonovsky nos apresentou o modelo salutogênico , que gera saúde , complementando o modelo patogênico focado na doença.
O Inquérito Apreciativo: Onde Colocamos Nossa Atenção Cresce
Aqui reside uma ferramenta transformadora: o inquérito apreciativo. Este método nos convida a direcionar nossa atenção também para o que funciona, para os recursos que já possuímos, para as potências já presentes em nossa vida.
Não se trata de negar problemas ou sofrimentos. Trata-se de reconhecer uma verdade psicológica fundamental: aquilo em que focamos nossa atenção tende a expandir-se. Se passamos nossos dias apenas identificando o que está errado, perdemos a oportunidade de cultivar o que está certo. Se só perguntamos "por que estou tão ansioso?", talvez nunca descubramos "quando me sinto mais calmo e presente?".
O inquérito apreciativo propõe perguntas diferentes:
Quais foram os momentos em que você se sentiu mais vivo no último ano?
O que genuinamente te dá energia?
Quando você experimentou conexão autêntica?
Que recursos internos você já utilizou para atravessar dificuldades anteriores?
Essas perguntas não anulam a dor, mas nos lembram de que somos mais do que nossos problemas.

Janeiro Branco Como Ponto de Partida, Não de Chegada
A campanha do Janeiro Branco cumpre um papel essencial ao trazer a saúde mental para o diálogo público. Porém, nosso maior desafio é evitar que o cuidado mental torne-se mais uma "trend" passageira nesta cultura acelerada : um "wellness washing" superficial, sem compromisso real com a transformação.
Cuidar da saúde mental não é tema de janeiro. É prática de janeiro a janeiro, todos os dias, em pequenas escolhas e grandes decisões. E aqui a Psicologia Positiva oferece caminhos concretos: cultivar gratidão diária, fortalecer relacionamentos significativos, identificar e aplicar nossas forças pessoais, buscar propósito, praticar autocuidado não como luxo, mas como necessidade vital.
Esperança Baseada em Evidências: Um Convite à Ação
Diante dos números preocupantes, é compreensível sentir desesperança. Mas a Psicologia Positiva nos oferece algo profundamente valioso: esperança baseada em evidências científicas.
Sabemos, com base em pesquisas robustas, que é possível desenvolver resiliência neuropsicológica. Podemos aprender a regular emoções. Relacionamentos positivos funcionam como fator protetivo significativo para a saúde mental. Encontrar significado na vida reduz sintomas depressivos e aumenta a satisfação vital.
Esta é uma revolução compassiva: reconhecer o sofrimento sem nos paralisar por ele, acolher a dor sem fazer dela nossa única identidade, tratar transtornos mentais com seriedade enquanto cultivamos ativamente nosso florescimento.

Seu Movimento em 2026
Que tal iniciar este ano com perguntas que abrem possibilidades?
O que você deseja cultivar em 2026?
Quando você se sente mais conectado com sua essência?
Que forças internas você já possui e pode fortalecer para construir a vida que deseja?
Lembre-se: o que você procura determina o que você encontra : e transforma. Nossa busca coletiva não precisa ser apenas pela ausência de doença, mas pela presença vibrante de saúde integral, significado profundo e conexão autêntica.

Como médicos atletas, conhecemos bem o poder do fortalecimento progressivo, da recuperação ativa, da mente e do corpo trabalhando em sinergia.
Que possamos aplicar esses princípios também à nossa saúde mental, com a mesma dedicação e esperança.
O florescimento humano não é um destino remoto, mas um caminho que construímos a cada passo consciente : e 2026 oferece 365 novos passos em potencial.

Letícia Gonçalves é esposa, mãe, escritora, fotógrafa, pintora e poetisa tem usado a psicologia positiva para imprimir vitalidade por onde passa. Mentora na MEVBrasil, membra da diretoria científica do Movimento Médicos Atletas, além de Co-autora Capítulo Alimentação do Livro Cardiologia do Estilo de Vida e Host do Podcast Papo de Nutróloga.
Médica de Família e Coaching de Saúde e Estilo de Vida, com formação em Nutrologia e Psicologia Positiva.



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