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Canabinoides: Agentes Neuroprotetores em Esportes de Contato



Nos esportes de contato, como Boxe, futebol americano, MMA e rugby, a busca pela vitória muitas vezes cobra um preço alto: traumas repetitivos na cabeça, concussões e risco de encefalopatia traumática crônica (CTE). Esses impactos não apenas afetam a performance imediata do atleta, mas podem trazer consequências neurológicas graves a longo prazo, incluindo declínio cognitivo, alterações comportamentais e funcionais e até doenças neurodegenerativas.

Nesse contexto, a Cannabis Medicinal tem ganhado destaque como uma possível aliada, principalmente pelos efeitos neuroprotetores atribuídos aos canabinoides, em especial o THC (Tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol).


Como os canabinoides podem proteger o cérebro?


O cérebro possui um sistema de regulação próprio, o Sistema Endocanabinoide (SEC), que atua como um “freio biológico” em processos inflamatórios e excitotóxicos. Após um trauma craniano, há aumento da liberação de glutamato, espécies reativas de oxigênio e ativação microglial, todos fatores que contribuem para o dano neuronal.

Os canabinoides, ao modularem receptores do SEC (CB1 e CB2) e outros alvos como receptores serotoninérgicos e TRPV1, podem:

  • Reduzir inflamação no tecido cerebral.

  • Diminuir a excitotoxicidade causada pelo excesso de glutamato.

  • Atuar como antioxidantes, neutralizando radicais livres.

  • Favorecer a neuroplasticidade, auxiliando na recuperação funcional.

Esses mecanismos sustentam a hipótese de que canabinoides possam oferecer neuroproteção em atletas expostos a impactos repetitivos.


Atuação dos Receptores Endocanabinoides (CB1, CB2, TRPV1, GPRs, PPARs)


Cristino L, Bisogno T, Di Marzo V. Cannabinoids and the expanded endocannabinoid system in neurological disorders. Nat Rev Neurol. 2020 Jan;16(1):9-29. doi: 10.1038/s41582-019-0284-z. Epub 2019 Dec 12. PMID: 31831863.
Cristino L, Bisogno T, Di Marzo V. Cannabinoids and the expanded endocannabinoid system in neurological disorders. Nat Rev Neurol. 2020 Jan;16(1):9-29. doi: 10.1038/s41582-019-0284-z. Epub 2019 Dec 12. PMID: 31831863.

O artigo de Cristino, Bisogno e Di Marzo destaca que o sistema endocanabinoide e o endocanabinoma atuam como reguladores fundamentais da homeostase neuronal e imunológica, sendo profundamente modulados em condições de lesão neurológica. Evidências mostram que a ativação de receptores CB1 e CB2, assim como de alvos do endocanabinoma (TRPV1, PPARs, GPRs), pode reduzir neuroinflamação, modular a plasticidade sináptica e proteger contra a excitotoxicidade glutamatérgica


  • A ativação dos receptores do endocanabinoidoma pode ter efeitos protetores


    • Agonismo CB1 em neurônios glutamatérgicos → reduz liberação de glutamato, prevenindo excitotoxicidade (um dos principais mecanismos de morte neuronal após trauma).


    • TRPV1 e GPR55 → modulam cálcio e excitabilidade neuronal; em excesso podem favorecer excitotoxicidade, mas também podem limitar inflamação dependendo do ambiente.


    • CB2 e PPARγ → reduzem ativação microglial pró-inflamatória (fenótipo M1) e favorecem o fenótipo M2 (neuroprotetor e reparador).

Cristino et al., Nat Rev Neurol (2020)
Cristino et al., Nat Rev Neurol (2020)

Evidências científicas em evolução


Estudos pré-clínicos já demonstraram que o CBD pode reduzir a morte neuronal após traumas experimentais. Pesquisas também apontam que o THC, em doses controladas, pode exercer efeito neuroprotetor, embora apresente maior risco de efeitos adversos psíquicos.


Van der Stelt et al.,  (2001)
Van der Stelt et al., (2001)

Estudos demonstram que o THC pode reduzir em até 36% a lesão neuronal em modelos de excitotoxicidade, efeito mediado principalmente pela ativação de receptores CB1, que diminuem a liberação excessiva de glutamato e reduzem a sobrecarga de cálcio intracelular.



Mecanismos centrais no dano neuronal pós-trauma. Além disso, o THC mostrou reduzir a astroglioses reativas (cicatrização glial exacerbada), possivelmente por vias independentes do CB1, contribuindo para limitar a inflamação e preservar a arquitetura neural. Isso sugere que, em atletas expostos a impactos repetidos, a modulação do sistema endocanabinoide pelo THC pode atuar como barreira biológica contra degeneração progressiva, embora sua

aplicação clínica exija cautela devido a potenciais efeitos adversos cognitivos e psíquicos.


(Kalbfell et al., 2023)
(Kalbfell et al., 2023)

O trabalho investigou se o uso crônico de cannabis poderia modular os efeitos de impactos subconcussivos na cabeça, comuns em esportes de contato como o futebol. Foram avaliados 43 jogadores adultos de futebol (24 usuários regulares de cannabis e 19 não usuários), submetidos a 20 cabeceios padronizados em laboratório.


Principais achados:


  • Função oculomotora (NPC – near point of convergence): ambos os grupos tiveram piora após os cabeceios, mas os usuários de cannabis apresentaram menor déficit e recuperação mais rápida.


  • Marcadores bioquímicos:

    • S100B (astrogliose/ativação inflamatória): aumentou de forma significativa nos não usuários, mas permaneceu estável nos usuários de cannabis.

    • Neurofilamento leve (NfL – dano axonal): só aumentou de forma discreta nos não usuários após 72h; não houve diferença significativa entre grupos.


  • Conclusão: o uso crônico de cannabis pode estar associado a resiliência oculomotora e menor resposta neuroinflamatória após impactos subconcussivos.


Efeitos do impacto na função oculomotora (NPC)

Gráfico demonstrando que:

  • Ambos os grupos tiveram aumento (piora) no NPC após os cabeceios.

  • Porém, os usuários de cannabis apresentaram menor piora aos 24h e 72h, com significância estatística.Interpretação: cannabis parece conferir resiliência visual-motora frente ao estresse subconcussivo


Biomarcadores sanguíneos (S100B e NfL)


  • S100B: não usuários apresentaram aumento progressivo até 72h; usuários mantiveram níveis estáveis.

  • NfL: discreto aumento apenas em não usuários após 72h, sem diferença entre grupos.Interpretação: cannabis pode reduzir a ativação glial (S100B), mas não protege de forma clara contra dano axonal (NfL)


Curvas ROC (acurácia diagnóstica)


  • Avalia a capacidade de distinguir usuários vs. não usuários com base nos marcadores.

  • S100B: excelente acurácia em todos os tempos pós-impacto (AUC 0.75–0.83).

  • NPC: apenas moderada acurácia em 72h (AUC ~0.70).Interpretação: S100B é o melhor biomarcador para diferenciar os efeitos do cannabis nos impactos subconcussivos



No âmbito esportivo, ainda faltam grandes ensaios clínicos que comprovem definitivamente esses benefícios. Entretanto, relatos de atletas profissionais já sugerem melhora no sono, menor dor crônica e redução de sintomas pós-concussão com o uso de Cannabis Medicinal.


Um exemplo é a NFL (liga de futebol americano dos EUA), que recentemente liberou investimentos em pesquisas sobre Cannabis para dor e concussões, reconhecendo o potencial dessa abordagem.


Desafios e Considerações


Apesar do entusiasmo, alguns pontos merecem cautela:

  • Regulamentação antidoping: o THC ainda é proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA), enquanto o CBD isolado está liberado.

  • Padronização de produtos: nem todos os extratos têm a mesma composição, o que impacta segurança e eficácia.

  • Falta de estudos robustos em atletas de contato, sendo a maioria das evidências oriunda de modelos animais ou relatos observacionais.


O futuro da Cannabis no esporte


À medida que a ciência avança, é possível que vejamos protocolos específicos de uso de canabinoides para atletas, voltados à prevenção de lesões cerebrais e melhora da recuperação pós-trauma. A personalização, levando em conta perfil genético, tipo de esporte e histórico de concussões, pode ser o próximo passo.


Se confirmados, os efeitos neuroprotetores da Cannabis poderão representar uma verdadeira revolução na medicina esportiva — oferecendo não apenas alívio para a dor, mas também uma estratégia para preservar o cérebro dos atletas.



Referências Bibliográficas


Cristino L, Bisogno T, Di Marzo V. Cannabinoids and the expanded endocannabinoid system in neurological disorders. Nat Rev Neurol. 2020 Jan;16(1):9-29. doi: 10.1038/s41582-019-0284-z. Epub 2019 Dec 12. PMID: 31831863.


VAN DER STELT, M. et al. Neuroprotection by Δ9-Tetrahydrocannabinol, the Main Active Compound in Marijuana, against Ouabain-Induced In Vivo Excitotoxicity. Journal of Neuroscience, v. 21, n. 17, p. 6475–6479, 2001. DOI:10.1523/JNEUROSCI.21-17-06475.2001.


Kalbfell RM, Rettke DJ, Mackie K, Ejima K, Harezlak J, Alexander IL, Wager-Miller J, Johnson BD, Newman SD, Kawata K. The modulatory role of cannabis use in subconcussive neural injury. iScience. 2023 May 25;26(6):106948. doi: 10.1016/j.isci.2023.106948. PMID: 37332596; PMCID: PMC10275955.


 
 
 

6 comentários


yuanliu kind
yuanliu kind
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yuanliu kind
yuanliu kind
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yuanliu kind
yuanliu kind
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yuanliu kind
yuanliu kind
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yuanliu kind
yuanliu kind
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