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O cuidado com o paciente com obesidade a partir da força de caráter da imparcialidade

Cá estou novamente, utilizando este espaço para compartilhar ideias que aprendo estudando psicologia positiva e convidar nossas leitoras a descobrirem como a ciência tem a capacidade de buscar uma vida apreciativa e nos transformar para construir saúde de forma concreta e autoral.


Hoje, proponho uma reflexão sobre uma das forças de caráter mais desafiadoras e essenciais para a prática clínica: a justiça. E o faremos a partir de um tema urgente na saúde pública contemporânea : o cuidado com o paciente com obesidade - ancorado nos recentes posicionamentos da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e em um marco científico: o estudo "Weight stigma in Latin America and the Caribbean: regional evidence and a call to action", publicado em 2026 na revista The Lancet Regional Health – Americas.


O peso (invisível) do estigma


A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por componentes genéticos, hormonais, ambientais, comportamentais e socioeconômicos. No entanto, na América Latina e no Caribe, o paciente com obesidade enfrenta uma barreira frequentemente mais pesada do que o próprio excesso de peso: o estigma.


Uma ampla revisão que sintetizou 128 estudos na região revelou que o estigma do peso é generalizado em ambientes sociais, educacionais, profissionais e, o que é mais grave, também dentro dos serviços de saúde. Profissionais de saúde e estudantes carregam vieses explícitos e implícitos, e crenças culturais frequentemente associam a obesidade ao fracasso pessoal - uma visão que reforça o estigma e mina o acesso ao cuidado adequado.


Outro artigo, também publicado na The Lancet, analisou 46 estudos e demonstrou que o estigma do peso produz sofrimento emocional profundo, exclusão social, bullying e processos contínuos de desvalorização moral, com marcadas dimensões de gênero. O sofrimento não é um efeito colateral; é uma experiência social produzida em relações próximas e atravessada por desigualdades históricas e culturais.


Diante desse cenário, a própria ABESO emitiu um chamado à ação (Call to Action), urgindo a adoção de linguagem não estigmatizante, cuidados baseados em evidências e políticas públicas para reduzir o estigma, garantindo tratamento equitativo, ético e eficaz para pessoas que vivem com obesidade.



Justiça é visão ampliada


A pergunta que nos move aqui é: como a força de caráter da justiça - entendida não como uma norma fria, mas como uma virtude cotidiana - pode nos ajudar a oferecer esse cuidado ético e equitativo?


No cuidado em obesidade, a justiça começa quando enxergamos o paciente para além do número na balança e do Índice de Massa Corporal (IMC). Significa reconhecer que, como aponta a nova diretriz da ABESO, o tratamento deve ser personalizado, integrando parâmetros clínicos, riscos cardiometabólicos e necessidades individuais. É a visão ampla que nos permite enxergar o contexto de vida, as dores emocionais e as barreiras estruturais que aquele paciente enfrenta.



As três dimensões da justiça no consultório


A filósofa Nancy Fraser propõe que a justiça verdadeira precisa ser atendida em três dimensões simultâneas: reconhecimento, redistribuição e participação. No cuidado com o paciente com obesidade, isso se traduz de maneira concreta.


O reconhecimento significa validar o paciente como sujeito legítimo, com uma história e uma experiência que merecem ser ouvidas, não apenas toleradas. Quantas vezes um paciente com obesidade sai de uma consulta sentindo-se julgado, reduzido ao seu peso? O reconhecimento é o antídoto para o estigma. É o ato de dizer: "Eu vejo você. Sua dor é real. E você merece cuidado."


A redistribuição refere-se ao amparo social e econômico real. De nada adianta reconhecer o paciente se ele não tem condições concretas de acessar um tratamento adequado. A ABESO, em suas diretrizes, reforça que as orientações nutricionais e de exercícios devem ser adaptadas ao contexto socioeconômico de cada paciente. A justiça, aqui, exige que olhemos para as desigualdades que estruturam o acesso à saúde.


A participação é o direito do paciente de se manifestar e ser ouvido, de ter voz ativa no seu próprio cuidado. Quantas decisões sobre tratamentos são tomadas sem que a perspectiva do paciente seja verdadeiramente considerada? A justiça restaurativa nos ensina que as perguntas certas são: "O que aconteceu com você?", "O que você precisa para seguir em frente?". Essa lógica, aplicada ao consultório, transforma a relação de poder e devolve ao paciente a condição de protagonista.


Desarmando o "nós" curto e os vieses implícitos


A neurociência nos mostra que o senso de injustiça é somático - sentimos no corpo antes de pensar, como raiva ou nojo. E um dos grandes desafios para a imparcialidade é o fenômeno do "nós" curto: comparamos nossa situação principalmente com quem está próximo. A injustiça causada por um bilionário distante nos afeta menos do que a diferença salarial de um colega.


No cuidado em obesidade, o "nós" curto pode nos levar a minimizar o sofrimento do paciente porque não estamos em seu lugar. A imparcialidade exige expandir o círculo de quem incluímos no nosso olhar. Exige que saiamos das nossas bolhas e busquemos representantes de todas as perspectivas envolvidas, inclusive - e especialmente - a daqueles que vivem com obesidade.


O artigo da The Lancet chama a atenção para os vieses implícitos entre profissionais de saúde : aqueles julgamentos automáticos que fazemos sem nem perceber, como assumir que um paciente com obesidade é preguiçoso ou sem força de vontade.

A boa notícia é que a imparcialidade pode ser treinada, cultivada e ampliada ao longo da vida. Isso exige humildade para reconhecer nossos próprios pontos cegos e disposição para ouvir perspectivas que nos incomodam.




Por uma justiça que começa em nós


Platão nos lembra que a justiça não é apenas uma norma externa, mas uma ordem interna. Na alma, exige que razão, emoção e vontade ocupem seus lugares adequados, gerando harmonia. A injustiça começa quando uma dessas partes domina indevidamente as demais.


Quando nos sentimos 'impotentes' diante de um paciente com obesidade, vale a pena acolher esse cansaço sem julgamento. Talvez ele esconda, com delicadeza, uma dor antiga: a de tantas demandas não ouvidas, de injustiças que se tornaram rotina, de um peso que não é só do corpo, mas também das relações. Dar nome a isso : estigma estrutural, silenciamento, desigualdade - não é apontar culpados, mas sim um gesto de cuidado conosco e com o outro. É o primeiro passo para transformar o cansaço em escuta, e a frustração em compromisso ético.


A força de caráter da justiça nos convida a ver com olhos bem abertos e a agir, mesmo quando é desconfortável. Implica reconhecer a si mesmo e ao outro como sujeitos plenos, dialogar com coragem e linguagem emocional precisa, reparar o que foi quebrado, dentro e fora de nós, e transformar os ambientes que habitamos, um gesto por vez.


No cuidado com o paciente com obesidade, a justiça começa quando escolhemos a humanidade sobre o preconceito, a escuta sobre o julgamento e a reparação sobre a punição. Como nos ensina o estudo da The Lancet, enfrentar o estigma do peso não é apenas uma questão de saúde pública; é uma questão de justiça social e de direitos humanos.


Que possamos, juntos, construir uma saúde mais justa - uma consulta, um acolhimento, uma escuta de cada vez.



Letícia Gonçalves é esposa, mãe, escritora, fotógrafa, pintora e poetisa tem usado a psicologia positiva para imprimir vitalidade por onde passa. Mentora na MEVBrasil, membra da diretoria científica do Movimento Médicos Atletas, além de Co-autora Capítulo Alimentação do Livro Cardiologia do Estilo de Vida e Host do Podcast Papo de Nutróloga.


Médica de Família e Coaching de Saúde e Estilo de Vida, com formação em Nutrologia e Psicologia Positiva.


Membra da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO)





 
 
 

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