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Atividade física e saúde mental na infância: evidências científicas e impacto no desenvolvimento

Como neuropediatra a médica atleta, sempre estou estudando os benefícios da atividade física na saúde geral dos meus pequenos. Sabemos que a infância é um período crucial para o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo. Além de aprender habilidades sociais e acadêmicas, as crianças estão formando os alicerces de sua saúde mental ao longo da vida. 


Um dos fatores que mais tem sido estudado nesse contexto é a atividade física — não apenas pelo seu papel na saúde corporal, mas também pelos benefícios significativos que ela pode trazer ao bem-estar psicológico das crianças.


Evidências científicas mostram impacto positivo


Diversas revisões e meta-análises têm observado que a prática regular de atividade física está associada a melhorias em vários domínios da saúde mental na infância e adolescência. Uma meta-análise recente com 30 estudos encontrou que intervenções de atividade física melhoraram significativamente aspectos como ansiedade, depressão, autoestima, competência social e redução do estresse em crianças e adolescentes, em comparação com grupos controle. A atividade física foi particularmente eficaz na redução do estresse e no desenvolvimento de habilidades sociais positivas (Fu, Q., Li, L., Li, Q. et al, 2025). 


Outro estudo grande, com dados longitudinais, indicado por pesquisadores como parte do KiGGS Study, mostrou que crianças e adolescentes que eram mais fisicamente ativos apresentaram melhor saúde mental geral ao longo do tempo. Isso sugere que altos níveis de atividade física podem exercer um efeito protetor contra problemas psicológicos desde idades precoces até a adolescência (Ganjeh, et al, 2021). 


Uma revisão mais antiga, mas ainda relevante, também encontrou associações entre atividade física em crianças e adolescentes com menor depressão e ansiedade, melhor autoestima e melhor desempenho cognitivo, embora muitos estudos revisados fossem de qualidade metodológica variada.




Atividade física pode reduzir risco de transtornos mentais


Pesquisas mais recentes sugerem que não só a atividade física isolada, mas a boa aptidão física desde a infância pode estar associada a um menor risco de desenvolver sintomas de transtornos mentais, como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Um estudo publicado no JAMA Pediatrics mostrou que níveis mais altos de aptidão cardiorrespiratória e muscular em crianças e adolescentes foram associados a menor risco de sintomas de TDAH, reforçando o papel da atividade física como parte de estratégias preventivas no desenvolvimento neurológico e mental. 


Mecanismos possíveis


Os mecanismos pelos quais a atividade física pode beneficiar a saúde mental na infância são variados e incluem:

  • Regulação neuroquímica — a atividade física aumenta a liberação de neurotransmissores como endorfinas e serotonina, que estão associados ao humor e à regulação do estresse.

  • Desenvolvimento cognitivo — a atividade física estimula a função executiva, a atenção e o processamento cognitivo, o que pode refletir em melhor desempenho escolar e autocontrole. 

  • Socialização — esportes e brincadeiras em grupo melhoram o senso de pertencimento, habilidades sociais e autoimagem.

  • Redução de comportamentos sedentários — menos tempo sentado e mais tempo ativo estão associados a níveis mais baixos de sintomas negativos de saúde mental, como tristeza, irritabilidade e isolamento. 


O que nós médico podemos fazer


Dado o conjunto de evidências, incentivar a prática regular de atividade física em crianças — por meio de brincadeiras, esportes organizados, educação física de qualidade e oportunidades de movimento ao ar livre — pode ser uma estratégia preventiva poderosa para promover a saúde mental desde cedo.


Neste contexto, o médico (mesmo que não seja pediatra) pode fomentar a atividade física em família, trazendo esse recurso para além dos benefícios físicos, sociais e cognitivos, mas também uma oportunidade de convivência familiar de qualidade.




Conclusão


A literatura científica aponta consistentemente que a atividade física está associada a melhoria significativa da saúde mental em crianças e adolescentes, incluindo redução de ansiedade, depressão e estresse, além de melhorias em autoestima, competência social e funcionamento cognitivo. 


Promover atividade física na infância não é apenas apoiar corpos mais fortes — é investir em mentes mais saudáveis e em um desenvolvimento emocional mais robusto para toda a vida.


Referências


  1. Fu, Q., Li, L., Li, Q. et al. Role of Physical Activity and Sedentary Behavior in the Mental Health of Preschoolers, Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-Analysis. BMC Public Health 25 , 1514 (2025). https://doi.org/10.1186/s12889-025-22690-8Carson V, et al. JAMA Pediatrics. Physical Fitness and Risk of Mental Disorders in Children and Adolescents.

  2. Rodriguez-Ayllon M, Cadenas-Sánchez C, Estévez-López F, Muñoz NE, Mora-Gonzalez J, Migueles JH, Molina-García P, Henriksson H, Mena-Molina A, Martínez-Vizcaíno V, Catena A, Löf M, Erickson KI, Lubans DR, Ortega FB, Esteban-Cornejo I. Role of Physical Activity and Sedentary Behavior in the Mental Health of Preschoolers, Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 2019 Sep;49(9):1383-1410. doi: 10.1007/s40279-019-01099-5. PMID: 30993594.The association between physical activity and mental health in children with special educational needs: A systematic review.

  3. Ganjeh P, Meyer T, Hagmayer Y, Kuhnert R, Ravens-Sieberer U, von Steinbuechel N, Rothenberger A, Becker A. Physical Activity Improves Mental Health in Children and Adolescents Irrespective of the Diagnosis of Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD)—A Multi-Wave Analysis Using Data from the KiGGS Study. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2021; 18(5):2207. https://doi.org/10.3390/ijerph18052207

  4. Chiang H, Chuang Y, Chen Y, et al. Physical Fitness and Risk of Mental Disorders in Children and Adolescents. JAMA Pediatr. 2024;178(6):595–607. doi:10.1001/jamapediatrics.2024.0806



Um abraço,

Alessandra



Dra Alessandra Freitas Russo é neurologista da infância e da adolescência com mestrado e doutorado pela USP. Atua na clínica Vivere, uma clínica de reabilitação infantil, onde é sócia fundadora.


É especialista em medicina do estilo de vida e acredita que a alegria e a gratidão são pilares de uma vida mais feliz.


@neuroevoce

@clinicadraalerusso






 
 
 

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