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Um Novo Capítulo para a Nutrição Global: Esperança em 2026

Inicio este ano de 2026 com um sentimento que há muito tempo não experimentava ao falar de nutrição: esperança genuína.

Como nutrologa e entusiasta da psicologia positiva, aprendi que a esperança não é uma ilusão ingênua : é uma força transformadora que nos energiza, nos direciona e nos dá algo concreto para onde olhar.

E neste momento, temos razões sólidas para cultivar esse grande otimismo de que fala o antropólogo Lionel Tiger: aquele que transcende expectativas específicas e nos coloca diante de algo verdadeiramente significativo.


As novas Diretrizes Dietéticas Americanas 2025-2030, recém-publicadas, representam muito mais que uma atualização técnica de recomendações nutricionais. Elas simbolizam uma mudança de paradigma que ecoa pelo mundo inteiro, convergindo , finalmente, com o que nosso Guia Alimentar Brasileiro já preconizava desde 2014: menos ultraprocessados, mais comida de verdade.

Essa convergência não é coincidência; é o resultado de uma narrativa esperançosa que vem sendo construída há anos por profissionais comprometidos, evidências científicas robustas e, principalmente, pela sabedoria acumulada sobre o que realmente nutre o ser humano.




A Esperança Sustentada por Evidências


O que me emociona profundamente neste documento americano é sua transparência científica. Baseado em umbrella reviews, meta-análises e metodologia GRADE, ele não apenas apresenta recomendações : ele reconhece limitações, admite incertezas e convida ao debate.

Isso é raro e precioso.

Quando as Diretrizes admitem que "mais pesquisas são necessárias" sobre gorduras saturadas ou sobre o real impacto de aditivos alimentares, elas não demonstram fraqueza: demonstram honestidade intelectual e respeito pela complexidade da ciência nutricional.

E nessa honestidade, encontro esperança. Porque finalmente estamos abandonando dogmas simplistas ("gordura é vilã", "carboidrato engorda") e abraçando a verdade mais profunda: o padrão alimentar importa mais que nutrientes isolados.

As Diretrizes 2025-2030 não estão pedindo que contemos calorias obsessivamente ou que eliminemos grupos alimentares inteiros.

Estão pedindo que retornemos à comida de verdade : aquela que nossos avós reconheceriam como alimento.


O Diálogo Entre Dois Guias, Dois Mundos


Quando coloco lado a lado as Diretrizes Americanas e nosso Guia Brasileiro, vejo não uma competição, mas uma complementaridade extraordinária.

O Brasil nos ensinou sobre processamento (a classificação NOVA que o mundo agora estuda), sobre comensalidade, sobre o prazer de comer junto, sobre respeitar nossa cultura alimentar.

Os Estados Unidos nos trazem agora metas objetivas e práticas : como a recomendação de 1,2 a 1,6g de proteína por quilo de peso corporal ao dia, distribuída ao longo das refeições, que facilitam a prescrição clínica e o acompanhamento terapêutico.

Essa fusão é poderosa para nós, médicos que trabalhamos com nutrição e exercício. Podemos usar o mapa brasileiro para orientar escolhas e hábitos (cozinhar em casa, evitar ultraprocessados, valorizar as refeições como momentos sagrados) e usar as metas americanas para ajustes clínicos finos, especialmente em situações específicas como sarcopenia, diabetes, emagrecimento ou performance atlética.


Proteína: Esclarecendo Mal-Entendidos


Preciso fazer um esclarecimento importante sobre um ponto que tem gerado confusão: as Diretrizes Americanas não recomendam aumentar indiscriminadamente o consumo de carne vermelha. O que elas fazem é valorizar a variedade de fontes proteicas de qualidade: ovos, aves, frutos do mar, carne vermelha in natura, leguminosas, oleaginosas, sementes e soja : e enfatizar a importância de priorizar proteína em todas as refeições.


A carne vermelha é reconhecida como fonte importante de nutrientes (ferro heme, zinco, vitamina B12), sim. Mas sempre dentro de um contexto de equilíbrio, moderação e qualidade. As Diretrizes são explícitas: prefira carnes in natura ou minimamente processadas, evite produtos cárneos com açúcares adicionados, carboidratos refinados ou excesso de aditivos químicos.


É um alinhamento perfeito com a filosofia de "comida de verdade" : não é sobre aumentar embutidos e processados, mas sobre escolher qualidade quando se escolhe carne.


A Revolução dos Ultraprocessados


Talvez o ponto mais esperançoso dessas diretrizes seja a firmeza com que tratam os alimentos ultraprocessados. Não há meias palavras: esses produtos devem ser limitados.


O açúcar adicionado não tem quantidade recomendada (zero é o ideal), e há metas práticas claras : menos de 10g por refeição, menos de 10% das calorias diárias. O sódio tem limite estabelecido. As gorduras saturadas também.

Mas mais importante que os números é a mensagem subjacente: escolha alimentos que seus bisavós reconheceriam como comida. Essa orientação, simples e profunda, é revolucionária justamente por sua simplicidade. Não precisamos de PhDs em nutrição para saber que uma laranja é melhor que um suco de caixinha, que feijão com arroz é superior a um "macarrão instantâneo", que água é melhor que refrigerante.


Comer Juntos: Como as Refeições Conectam Pessoas


O Guia Brasileiro nos deu uma lição que o mundo inteiro precisa aprender: comer não é apenas ingerir nutrientes. É um ato social, cultural, afetivo. As recomendações sobre comer com regularidade, em ambientes apropriados, com atenção plena e em companhia de pessoas queridas vão muito além da nutrição : tocam em nossa necessidade fundamental de conexão e pertencimento.


Neste aspecto, as Diretrizes Americanas ainda têm o que aprender com o Brasil. Mas o fato de que essa conversa está acontecendo, de que conceitos como "comensalidade" estão ganhando espaço no debate científico internacional, já é motivo para esperança.

Estamos expandindo nossa compreensão do que significa alimentar-se bem.


Esperança Traduzida em Ação


Para nós, profissionais de saúde, esse momento pede ação sustentada por esperança. Temos agora ferramentas poderosas:

No consultório, podemos usar o Guia Brasileiro como base filosófica e comportamental (evitar ultraprocessados, valorizar o cozinhar, construir rituais alimentares saudáveis) e as Diretrizes Americanas como referência quantitativa (metas de proteína, sódio, açúcar) quando precisamos de ajustes terapêuticos precisos.

Na educação alimentar, temos narrativas esperançosas para compartilhar, podemos contar a nossos pacientes histórias verdadeiras de transformação através da comida de verdade. Cada caso de reversão de pré-diabetes, cada história de emagrecimento sustentável, cada relato de mais energia e disposição é uma narrativa esperançosa que inspira outros.

Na sociedade, podemos usar essas diretrizes convergentes para pressionar por políticas públicas melhores : regulação de ultraprocessados, educação nutricional nas escolas, incentivo à agricultura familiar, acesso facilitado a alimentos in natura para populações vulneráveis.


O Grande Otimismo


Voltando a Lionel Tiger: o grande otimismo não se refere a expectativas específicas, mas a algo maior e transformador.

Meu grande otimismo para 2026 e além é este: estamos testemunhando o início do fim da era dos ultraprocessados e o renascimento da comida de verdade como prioridade global?!


Essa não é uma previsão ingênua. É uma esperança sustentada por evidências, por convergência científica internacional, por mudança de discurso em documentos oficiais, por crescente conscientização pública. É uma esperança que se torna mais provável à medida que cada um de nós : médicos, nutricionistas, educadores, pais, cidadãos , age de maneira alinhada com esse futuro desejado.


Como nos ensina a psicologia positiva, esperança não é espera passiva. É expectativa ativa acompanhada de ação direcionada a objetivos.

E nosso objetivo está claro: promover padrões alimentares baseados em comida de verdade, respeito à cultura, prazer compartilhado e densidade nutricional.


Este é o nosso ano. Este é o nosso momento. E pela primeira vez em muito tempo, sinto que não estamos sozinhos nessa luta : o mundo inteiro está começando a acordar para a mesma verdade fundamental que sempre esteve diante de nós: comida de verdade nutre, cura e conecta.


Que 2026 seja o ano em que essa esperança se traduza em milhões de refeições mais saudáveis, em famílias reunidas à mesa, em escolhas conscientes nos supermercados, em políticas públicas mais justas.


Que seja o ano em que a nutrição finalmente reencontre sua essência: cuidar do ser humano inteiro, corpo e alma, através do alimento verdadeiro.


A esperança está plantada. Cabe a nós regá-la com nossas ações diárias.



Letícia Gonçalves é esposa, mãe, escritora, fotógrafa, pintora e poetisa tem usado a psicologia positiva para imprimir vitalidade por onde passa. Mentora na MEVBrasil, membra da diretoria científica do Movimento Médicos Atletas, além de Co-autora Capítulo Alimentação do Livro Cardiologia do Estilo de Vida


Médica de Família e Coaching de Saúde e Estilo de Vida, com formação em Nutrologia e Psicologia Positiva.



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