Atividade física na criança e no adolescente com TDAH: benefícios reais e indicações práticas
- Dra Alessandra Russo
- há 19 horas
- 3 min de leitura
Vamos seguir com nossa série sobre atividade física na infância e seus benefícios nos transtornos do neurodesenvolvimento. E hoje é o dia de falarmos sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
Quando falamos de TDAH, é comum que o foco recaia sobre técnicas de estudo, comportamentos desafiadores ou estratégias escolares. Mas existe um recurso poderoso, gratuito e cientificamente comprovado que muitas vezes não recebe a atenção que merece: a atividade física.
O movimento tem impacto direto nos circuitos cerebrais responsáveis por atenção, motivação, controle inibitório e autorregulação — exatamente os domínios mais desafiados no Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.
E quanto mais cedo começamos, maior a chance de transformar o comportamento, o humor e o desempenho escolar.
Por que a atividade física ajuda tanto no TDAH?
O cérebro da criança com TDAH tem diferenças no funcionamento dos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico, responsáveis pela motivação, foco e controle do comportamento. O exercício físico atua justamente nesses sistemas.
Durante e após a prática de atividade física, ocorre um aumento natural de:
dopamina → melhora o foco e a motivação
noradrenalina → aumenta alerta e capacidade de atenção
serotonina → regula humor e reduz impulsividade
BDNF (fator neurotrófico) → estimula neuroplasticidade e aprendizagem
Isso significa que, após se movimentar, a criança tende a:
✔ se concentrar melhor
✔ controlar melhor a impulsividade
✔ regular emoções com mais facilidade
✔ apresentar maior tolerância à frustração
✔ se engajar mais na aprendizagem
É como se o exercício ajudasse o cérebro a “entrar no eixo”.

Quais atividades físicas são mais indicadas para crianças e adolescentes com TDAH?
A boa notícia: não existe uma única modalidade ideal. O melhor exercício é aquele que a criança realmente gosta — porque aí ela mantém a rotina.
Mas existem categorias com benefícios específicos:
1. Esportes aeróbicos
Caminhada, corrida leve, bicicleta, natação, dança.
Aumentam dopamina e noradrenalina
Melhoram foco imediatamente após a prática
Reduzem hiperatividade motora
Excelente para começar.
2. Artes marciais
Judô, taekwondo, karatê, jiu-jitsu.
Trabalham disciplina
Exigem atenção plena no movimento
Ensina controle inibitório e autocontrole
Desenvolvem coordenação e equilíbrio
Muito indicados para impulsividade e desorganização.
3. Esportes coletivos
Futebol, basquete, handebol, vôlei.
Aperfeiçoam função executiva
Ensina turnos sociais, regras e cooperação
Trabalham tomada de decisão rápida
Úteis para habilidades sociais e leitura do ambiente.
4. Atividades estruturadas de concentração motora
Escalada, slackline, patinação, ginástica.
Exigem foco sustentado
Reforçam planejamento motor
Aumentam percepção corporal
Ideais para quem precisa trabalhar atenção plena.

Quanto tempo de atividade física é ideal?
As recomendações internacionais sugerem:
pelo menos 60 minutos/dia de atividade física moderada a vigorosa
podendo ser fracionada em blocos de 10 a 20 minutos
Para TDAH, pequenos blocos de movimento antes das tarefas escolares podem fazer grande diferença.
Estudos mostram que:
💡 20 minutos de exercício aeróbico já melhoram atenção e impulsividade de forma aguda.💡 Prática regular por 6 a 12 semanas melhora comportamento global, humor e desempenho escolar.
Mas e quando a criança tem muitas dificuldades comportamentais?
Algumas adaptações facilitam:
começar com atividades curtas e prazerosas
alternar movimento com tarefas mais cognitivas
usar reforçadores positivos
escolher atividades com regras claras e previsíveis
evitar ambientes muito caóticos no início
conversar com o treinador sobre as necessidades da criança
Crianças com TDAH respondem melhor a ambientes estruturados e com adultos sensíveis às suas particularidades.
Muito além do exercício: uma ferramenta de desenvolvimento
A atividade física não é apenas gasto de energia — é um instrumento neurobiológico que ajuda o cérebro a se organizar.
Ela apoia:
✔ memória de trabalho
✔ funções executivas
✔ organização corporal
✔ regulação emocional
✔ habilidades sociais
✔ autoestima
E, quando associada a outras intervenções, como terapia comportamental e acompanhamento médico, os resultados são ainda melhores.
A atividade física não é um “extra” no tratamento do TDAH — ela é um caminho potente para que a criança e o adolescente descubram novas formas de foco, equilíbrio, pertencimento e desenvolvimento.
Um abraço,
Alessandra

Dra Alessandra Freitas Russo é neurologista da infância e da adolescência com mestrado e doutorado pela USP. Atua na clínica Vivere, uma clínica de reabilitação infantil, onde é sócia fundadora.
É especialista em medicina do estilo de vida e acredita que a alegria e a gratidão são pilares de uma vida mais feliz.
@neuroevoce
@clinicadraalerusso


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